31 de julho de 2009

Uma "gymkana" em Seteais (1927)

(Fonte: Hemeroteca)

No número 142 do Domingo Ilustrado, de 2 de Outubro de 1927, este registo alusivo a uma gincana automóvel em Seteais, inserida no programa das festas de Nossa Senhora do Cabo. Vê-se que a assistência era muito numerosa.
O interesse dos sintrenses pelos automóveis é muito anterior ao Rally das Camélias ou às grandes classificativas do Rally de Portugal, que terminaram tragicamente em 86.
Uma das figuras da corte que mais marcaram a memória das gentes da vila foi o Infante D. Afonso, Duque do Porto, grande frequentador de Sintra, conhecido por "O Arreda" — por gritar constantemente "Arreda!Arreda!" para que os transeuntes desimpedissem o caminho, quando circulava a grande velocidade com o seu Fiat, o automóvel vencedor do 1º raid Figueira da Foz - Lisboa, em 1902. O mesmo D. Afonso foi um dos fundadores do Real Automóvel Club de Portugal, em 1903, que tinha como presidente Carlos Roma du Bocage, da Villa Roma.
Para se ter uma ideia da importância dada aos automóveis por estas bandas, vejam-se estes excertos de uma notícia publicada no número 1 da Gazeta Sportiva, jornal local de Sintra, de 28 de Agosto de 1924:

"O circuito de Sintra em Automóvel
Foi definitivamente marcado o dia 7 do próximo mês de Setembro para a realização do circuito de Sintra, organizado pelo Século e com a colaboração da Câmara Municipal do concelho e do Casino.
É sem dúvida a mais importante prova que se tem realizado nos últimos tempos em Portugal (...)
A reparação das estradas do percurso, parte indispensável para a realização da prova, está já assegurada e deve ter início ainda esta semana.
Sua exª. o Ministro da Guerra autorizou, sem dispêndio para o Estado, que um grupo de soldados do batalhão de Sapadores de Praça auxiliasse os trabalhos de reparação (...)"

1905 (Seteais?) -A gincana de Cascais, prova de Sintra (Arquivo Municipal Lisboa ).

Infante D. Afonso, "O Arreda".

30 de julho de 2009

"Manto inconsútil nómada sobre castelo e bosques"

(Foto:
sintra, acerca de)

Manhãs de infância
Ter-te nas mãos em concha ó Serra

de Sintra verde pomba mansa de heras

manhãs de infância hibernadas

pitospóro a exalar primaveras

paralelas obsessivas derramadas

no tempo escorregadia voz e violino rosto à janela

manto inconsútil nómada sobre castelo e bosques

morrinha orvalho lágrima chorada

pelo coração do mar.

Maria Almira Medina, Sem moldura, 1996.

27 de julho de 2009

Outra vez a Visão: Camões? Vergílio Ferreira!


Depois do post anterior, tinha jurado não voltar a olhar para a revista, mas fui logo dar de caras com isto: «Camões disse-o maravilhosamente. Sintra é o lugar onde a Europa diz adeus, "quando enfim encontra o mar".»
A frase é de Vergílio Ferreira... O mais grave é que o engano não se deve a distracção, mas a puro erro de leitura provocado por uma referência a Camões no início da frase seguinte. Fica a transcrição correcta:
«Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que "mar e céu". E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça.»
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente.

Eléctricos - a Visão anda distraída...

A Visão desta semana faz uma bela capa com o Palácio da Pena, mas no dossier Férias com História, em que se dá grande destaque ao itinerário romântico de Sintra - quase um decalque da recente campanha Sintra Capital do Romantismo (como uma revista consagrada se cola à agenda autárquica), afirma-se o seguinte acerca do eléctrico Sintra-Praia das Maçãs: «proporciona uma viagem de 12 km de sexta a domingo, estando os restantes dias reservados a excursões.» Todos os leitores que, fiados no que dizia a Visão, tiverem demandado o eléctrico, terão constatado que este continua a circular apenas até à Ribeira... Há alguma ligeireza na forma como se redigem estes panfletos turísticos à guisa de reportagem, ainda por cima com honras de primeira página. Passou ao lado de uma redacção inteira o pormenor de o eléctrico não chegar à Praia das Maçãs desde Fevereiro de 2008, estando, desde Abril desse ano, reduzido a um percurso de dez... minutos! Desde que o Bolachas fechou que os jornalistas de Lisboa não fazem a mínima do que se passa na Praia!

A Sala das Pias da antiga Mathilde

Há dias, regozijei-me aqui pela abertura de uma casa de chá no espaço onde funcionara a consagrada queijadaria da Mathilde. Faltava, porém, o registo fotográfico das pias usadas para salgar e dessalgar os queijos frescos empregues no fabrico das queijadas. Felizmente, esta sala única resistiu a trinta e cinco anos de encerramento. O meu agradecimento à proprietária da Saudade, que amavelmente me permitiu a recolha e divulgação deste registo.

A Quinta da Saibreira, retiro de Adães Bermudes.




A quinta onde viveu Adães Bermudes.
Arnaldo Redondo Adães Bermudes (1863-1947), a quem já me referi aqui, e que tem merecido a atenção do Rio das Maçãs, é, juntamente com Raul Lino, Rosendo Carvalheira e Norte Júnior, um dos arquitectos portugueses que mais e melhor obra deixaram em Sintra, avultando no portfólio sintrense de Bermudes os emblemáticos Paços do Concelho e a Cadeia Comarcã, entre outras realizações menos notadas.
Nesta Quinta da Saibreira, sua propriedade, passou o arquitecto os últimos anos de vida, nela vindo a falecer. Será de sua autoria o projecto da casa, que, apesar do seu estado de abandono, revela certa elegância dissonante do casario que a rodeia no largo baptizado com o nome do seu proprietário? Não sei se a exposição que findou no passado dia 20 sobre o centenário dos Paços do Concelho, que não consegui visitar, fazia menção desta casa, onde a CMS fez afixar uma lápide em 2005, talvez antecipando já a futura realização desta exposição.O estado em que toda a quinta se encontra não é digno de um imóvel suficientemente importante para que nele se afixe uma lápide.
É certo que não estamos em tempo de vacas gordas, mas, tratando-se de um imóvel de interesse municipal (que deve estar, presumo, classificado como tal), ademais numa zona do concelho onde falecem os atractivos patrimoniais, seria de ponderar a hipótese de se proceder à sua aquisição para nele instalar algum equipamento público, não necessariamente de carácter estritamente cultural, que não desmerecesse o nome do grande homem que ali viveu.
No mesmo largo onde se encontra a Quinta da Saibreira, entronca a Rua Francisco dos Santos, grande escultor e ilustre filho daquela pacata terra, em cuja casa, na referida rua, se encontra também uma lápide. Os destinos destes dois nomes não se cruzaram só em Paiões: Francisco dos Santos foi o autor da estátua do Marquês de Pombal, cujos trabalhos de arquitectura são da autoria de António do Couto e de... Adães Bermudes!
Uma boa ideia seria, talvez, projectar para a Quinta da Saibreira um equipamento que pudesse homenagear estes dois nomes que tanto honraram o nosso concelho.
Artigo de Carlos Enes sobre Francisco dos Santos aqui.

Lápide afixada na parede da quinta:
«Nesta casa viveu o ilustre arquitecto Arnaldo Redondo Adães Bermudes, 1863 - 1847, CMS 2005.»
Placa toponímica.
O restauro da Cadeia Comarcã segue a bom ritmo. Uma iniciativa da CMS que cumpre saudar.

25 de julho de 2009

Estefânia, a «Sintra Moderna» de 1927


(Fonte: Hemeroteca)
Vista aérea da envolvente do Casino, publicada no número 141 do Domingo Ilustrado, de 25 de Setembro de 1927. Visível, no canto inferior esquerdo, a zona do actual Mercado, inaugurado em 1951. Ali existira a praça de touros de Sintra, anterior a 1878 (cf. José Alfredo) e assiduamente frequentada pela família real. Seria, a manter-se em actividade, das mais antigas do país. Foi demolida por ordem de Fernando Formigal de Morais após a implantação da República, com a intenção de se construir uma melhor. Não seria uma grande praça, mas tinha o seu pitoresco. O camarote real, por exemplo, de que já vi registos fotográficos, era belíssimo.


A Praça de Touros de Sintra no número 137 da revista Brasil - Portugal, de 1 de Outubro de 1904.
(Fonte: Hemeroteca)

22 de julho de 2009

Antiga Mathilde reabre como casa de chá

Artigo sobre a Mathilde no nº 141 do Domingo Ilustrado, de 25 de Setembro de 1927.
(Fonte: Hemeroteca)
Ontem à noite, descendo da estação a caminho do Apeadeiro, onde me aguardava um saboroso repasto, umas inoportunas gotas de chuva fizeram-me procurar abrigo junto à antiga Mathilde, onde, durante muitos anos, existiu uma livraria e, ultimamente, funcionou uma agência de viagens. Qual não foi o meu espanto quando constatei que ali se encontra agora em funcionamento uma elegante e acolhedora casa de chá, que dá pelo nome de Saudade. Mirable dictu, pelas nove da noite, encontrava-se à pinha de clientes. Espantado, aturdido mesmo com tamanho frenesi nocturno num estabelecimento da sorumbática Estefânea, entrei para saciar a curiosidade. Todo o espaço foi impecavelmente recuperado e decorado e numa dependência das traseiras, usada como galeria, podemos ainda ver as pias de pedra onde se salgavam os queijos frescos empregues no fabrico das antigas queijadas da Mathilde, depois das da Sapa, as mais antigas de Sintra e, como recorda algures José Alfredo, as predilectas de D. Fernando II. Um achado! Este interessante vestígio seria o bastante para justificar uma visita ao local, se não acrescesse que a gerência, com quem troquei algumas impressões, é simpaticíssima e tudo naquele espaço patenteia um irrepreensível bom gosto. O espaço tem um blogue. A não perder!

O «carro para a vila» passando um pouco abaixo da Mathilde em 1901. Ilustração do número 39 da revista Brasil-Portugal.

(Fonte: Hemeroteca)

20 de julho de 2009

Singularidades de um microclima atlântico

No cada vez mais imperdível Sintra, Acerca de, esta frase deliciosa e lapidar sobre um certo microclima muito nosso conhecido:
«Afirmar que se adora Sintra acrescentando que em Sintra se adoraria viver não fosse pelo clima é uma declaração de amor disparatada – como adorar leite-creme não fosse o açúcar queimado, ou adorar ir ao cinema não fosse ter medo do escuro.»
Do melhor que tenho lido sobre a Sempre Noiva.
Vai para o caderninho!

Um grande escritor sintrense

Miguel Real (Foto: Nova Águia)
Sintrense por adopção, como outros grandes nomes da nossa terra (Maria Almira Medina ou Nunes Claro, por exemplo), Miguel Real é um daqueles vultos de homem de letras que, pelo apego a causas e ideais, pelo dom da palavra, pelo trato afável e bondade congénita, pela «educação vistosa das viagens», como diria Cesário, nos lembram um Aquilino Ribeiro, um Ferreira de Castro ou um Alçada Baptista.
O êxito da recente novela A Ministra trouxe-lhe um mediatismo que em nada beliscou a sua irredutível humildade, que lhe permite continuar a captar os estranhos sinais deste nosso tempo, nem veio, com os louros das câmaras e microfones, preencher alguma sede de reconhecimento ou notoriedade, pois de há muito tempo a esta parte que a obra romanesca, ensaística e dramatúrgica de Miguel Real vem sendo amplamente reconhecida e premiada.
Os depoimentos em que Miguel Real se tem desdobrado acerca do seu último trabalho revelam a coragem de um escritor comprometido, surpreendente face à apatia e inércia vigentes no nosso meio intelectual, agora aparentemente sacudido pela iniciativa de um serôdio manifesto. Um exemplo da enorme frescura do seu discurso é esta entrevista concedida à Antena 1, que põe o dedo na ferida quanto à problemática da condição feminina no Portugal de hoje.
Para além de escritor de grande craveira, é Miguel Real um professor empenhado de uma geração que, quando abandonar o ensino, deixará a escola pública orfã da experiência, do bom senso e, sobretudo, da cultura que, por qualquer razão, o sistema - seja lá ele o que for - não parece ter conseguido transmitir às fornadas e fornadas de funcionários docentes com que inundou o ensino.
Interrogam-se os poucos leitores deste espaço sobre a pertinência deste post face ao âmbito dos temas geralmente aqui abordados. Bastaria dizer que Miguel Real é um apaixonado por tudo quanto a Sintra diga respeito, comungando, portanto, do puro amor sintrense que presidiu à criação do Beijo da Terra. Mas assumo também como motivações próximas deste post a admiração que nutro por Filomena Oliveira, sua mulher, que em Santa Maria, com o exemplo da sua irresistível originalidade, me ensinou a importância da palavra «diferença», e a amizade que me liga a David Martins, seu filho e meu antigo companheiro de inenarráveis aventuras.
Se carreguei nos adjectivos, não mos levem a mal. Foi o coração que os ditou.
António Lourenço

10 de julho de 2009

O eléctrico do povo

Hemeroteca

No Domingo Ilustrado de 2 de Outubro de 1927, este registo da Praça da República e do Largo da Rainha D. Amélia, engalanados a preceito, apinhados de saloios e fidalgos (indiferentes à toponímia), por ocasião das festas de Nossa Senhora do Cabo. No canto inferior esquerdo, o eléctrico, avançando alegremente por entre a multidão.

Passaram hoje 105 anos sobre a chegada do primeiro eléctrico à Praia das Maçãs. Entretanto, as obras de recuperação do troço Ribeira - Praia, com arranque anunciado para a semana que findou, parecem estar a desenrolar-se aproveitando escrupulosamente os nevoeiros matinais tão típicos da região, assim poupando os turistas ao choque perante mais um caótico cenário de obras em plena vilegiatura. Os bloguers da região ficam também dispensados de procurar quaisquer vestígios das referidas obras, de tal forma a logística da operação montada tem sido irrepreensível.

6 de julho de 2009

A verdadeira estrada de Sintra

Valiosíssimos estes registos do Estúdio Mário Novais, em boa hora digitalizados pela Gulbenkian. Este, em particular, traz-me à memória um antigo ritual da infância: a ida de Sintra a Lisboa, instalado num compartimento que o VW 1500L tinha entre o banco de trás e o vidro.
A foto foi tirada a partir da antiga estrada de Sintra, a verdadeira, a do mistério, numa zona de curvas que atravessa uma mata, um pouco acima de Rio de Mouro Velho, cujas últimas casas são bem visíveis.
A casa no canto inferior esquerdo era uma escola com um letreiro que, se não estou em erro, dizia «Refúgio das Meninas Pobres».
Mais à esquerda, um monte de oliveiras, por trás do qual fica Paiões, onde nasceu Francisco Santos, o mesmo que deu nome à rua paralela à agora tão polémica Quinta dos Lagos, autor da estátua do Marquês de Pombal. Também nesse lugar de Paiões, pouca gente o lembra, tinha Adães Bermudes uma quinta com uma vista deslumbrante para a serra.
Muito ao longe, na campina, antes da serra, distinguem-se os campos de Albarraque, onde, também já ninguém se recorda, o José Gomes Ferreira teve uma casa, que conheci, com o seu Poço do Cigano, rodeada de árvores, a fazer lembrar as Aventuras de João Sem Medo. O projecto era do filho Hestnes. A casa ainda existe.
A Sintra dos palácios e das praias sempre se esqueceu desta outra, do lado de cá, dos saloios que a idolatravam, que se fizeram altivos de tanto levantarem a cabeça para mirar a serra. Havia gente que vendia as terras herdadas dos pais e dos avós para ter as filhas no Ramalhão.
Depois, o saloio virou as costas à serra, rumou a Lisboa, a grande loba. E o subúrbio abateu-se implacável sobre a campina.

A montanha mágica

Negra serra de Sintra onde vagueia
O espírito do vento, à noite-morta,
Esse ponto de Alcácer que transporta
De longe a voz do mar quebrando-se na areia...
Ó alta serra estática e brumosa,
Com fontes a chorar saudosas de ninguém,
E rumorosa
De verdes arvoredos;
Ó serra onde, ao luar, são almas os rochedos
Erguidos para os céus, numa ansiedade, além;
Paisagem do meu sonho e da tristeza,
Serra do meu cismar...
Anrique Paço D'Arcos, Desolação

5 de julho de 2009

100% de emoções, 0% de emissões!


DN - Mais um Verão sem eléctrico até à Praia das Maçãs

Mal acabara de afixar o post anterior, dei de caras com esta notícia no DN de hoje.

Um desejo chamado eléctrico

O número 921 da revista Occidente, de 30 de Julho de 1904, trazia este registo da Praia das Maçãs, servida, desde 10 desse mês, pelo eléctrico. Na próxima sexta-feira, comemoram-se 105 anos sobre a chegada do primeiro eléctrico à Praia. No entanto, não é de prever que, nesse dia, se aviste nenhuma composição por aquelas bandas, pois a circulação encontra-se limitada entre a Estefânea e a Ribeira. Em Lisboa, apesar do trânsito e do mau urbanismo, há eléctricos centenários a operar sem notícia destas enigmáticas interrupções. Se a Câmara de Sintra não tem know-how para manter a linha a funcionar, então que faça um protocolo com a Carris. Mesmo em Sintra, o eléctrico manteve-se em serviço, sazonalmente ou a tempo inteiro, entre 1904 e 1975. Inclusivamente, como se sabe, de 1930 a 1955, o eléctrico operava entre a Vila e as Azenhas, na extensão aproximada de quinze quilómetros! Porquê agora este rol de complicações?